domingo, 23 de janeiro de 2011

"A filosofia que cultivo não é nem tão bárbara nem tão inacessível que rejeite as paixões; pelo contrário é só nelas que reside a doçura e felicidade da vida."

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Ironia - 2º Sócrates

«O filósofo ironiza», dizia Sócrates; quase todos os diálogos de Platão refletem em algumas passagem esta ironia que, para Sócrates, acompanhava toda a reflexão séria, a tal ponto que imensas discussões filosóficas  nos apresentam como verdadeiras cenas de comédia.

Torna-se importante observar que a ironia Socrática não se tratava de um talento satírico ou da expressão de um desejo de difamação. Conforme a observação de Romano Guardini:

« A ironia de Sócrates [...] não visa desqualificar o outro, mas ajudá-lo. Ela quer libertá-lo e abri-lo à verdade[...]. A sua ironia procura criar um mal-estar e uma tensão no centro do homem, para que aí proceda o movimento esperado, no próprio interlocutor, se este não puder ser socorrido...

Sócrates encontrava-se frequentemente face a temíveis profissionais do saber e da eloquência que nunca se sentiam apanhados desprevenidos, eram mestres que tinham resposta para tudo e que ignoraram a hesitação do escrúpulo e da interrogação da reflexão. Sócrates, ao contrário, era o homem das interrogações, aquele que nunca se deixava enclausurar em nenhum sistema, aquele que se recusava a ter ponto certo o que não era, ou a estiar como problemática aquilo que era perfeitamente certo.

Os interlocutores de Sócrates, como Hípias que sabia fazer tudo, como Protágoras que se dava ares de um professor de virtude, Cálices ou Trasímaco que pensavam puder fundar uma moral e uma política sobre o «direito» do mais forte, não eram irónicos, eram pelo contrário personagens sérias, isto é, personagens que levavam a sério esses assuntos. Mas a sua seriedade era uma falsa seriedade. Era a essa seriedade é que se opunha à ironia socrática. Assim, era a seriedade dos interlocutores de Sócrates que nos devia fazer sorrir, ao passo que a ironia do filósofo devia ser, ela, levada a sério, pela simples razão de que ela era a verdadeira consciência.

A ironia de Sócrates consistia em apanhar o homem sério na sua própria armadilha, mostrando-lhe que essa seriedade repousa na ignorância que se ignora. Como diz Bergson:

«A ironia que ele passeia com ele é destinada a afastar as opiniões que não sofreram a prova da reflexão e a envergonhá-las, por assim dizer, pondo-as em contradição consigo mesmas.»

É por isso que o procedimento de Sócrates era frequentemente o seguinte: O diálogo que começava pela procura de uma definição, o verdadeiro, o justo, o belo, a piedade, um interlocutor seguro de si que dava imediatamente uma definição. Sócrates ficava maravilhado, aceitava a definição do interlocutor que se impertigava, e tirava dela, com o seu consentimento, deduções cada vez mais precisas. O interlocutor não deixava de seguir Sócrates e de o aprovar, extremamente satisfeito por ver que a sua definição ainda era mais rica do que ele próprio tinha julgado. Depois, subitamente, Sócrates estacava e mostrava que o ponto de chegada estava em contradição formal com o ponto de partida. Se o interlocutor estivesse de boa fé ele concluía daí que a definição de nada valia e que era necessário propor uma outra. Sócrates retomava então a discussão e passava ao crivo as definições sucessivas que lhe propunham. Muitas vezes o diálogo concluia-se e Sócrates deixava o seu interlocutor confundido dizendo-lhe que talvez numa outra altura pudessem examinar de novo o problema. Mas podia acontecer que o interlocutor estivesse de má-fé e que então se recusásse a participar na conversa e a admitir a sua ignorância. Se a pessoa se entregava ao orgulho ferido, tornava-se um inimigo feroz, e foi esta a razão que lhe custou a vida.

Sócrates foi comparado ora a uma tremelga ora a um moscardo. Justamente como a tremelga paralisa a sua presa, do mesmo modo Sócrates paralisava o interlocutor seguro de si próprio e que não via que o seu saber não era senão um pseudo-saber, uma ignorância que se ignora.

Em suma, a ironia socrática reconduzia as pseudocertezas às justas proporções e, denunciava as suas pretensões usurpadoras, apanhava o interlocutor nas suas próprias redes. A ironia opunha-se a tudo o que desse conta da existência em termos de conceitos e de sistemas fechados, a tudo que pretendesse congelar a existência encerrando-a nos limites muito estreitos do pensamento objectivo: ela denunciava a impotência dos falsos poderes. Sócrates não se preocupava em ser professor de hebreu, nem escultor, nem primeiro dançarino, preocupava-se em ensinar aos outros o que todos sabiam, ou mais exactamente deveriam saber; a intenção de Sócrates era pois essencialmente irónica uma vez que se propunha fazer que encontrássemos o que possuímos, fazer que descobríssemos o que temos, que nos colocássemos em presença da proximidade, e que nos conduzissemos em direção ao caminho do simples e do imediato. Como diz Kierkegaard, a ironia não é a verdade mas o caminho, pois a ironia impede todo o homem de ter a última palavra pois no fundo não há palavra que possa ser dada como última.

Kierkegaard foi um Filósofo, que nasceu em 1813 e morreu em 1855.

Maiêutica


Sendo filho de uma parteira, Sócrates costumava comparar a sua atividade com a de trazer ao mundo a verdade que há dentro de cada um.

« Ora, a minha arte de maiêutico é em tudo semelhante à das parteiras mas difere nisto, em que a ajuda a fazer dar à luz homens e não mulheres e provê às almas geradoras e não aos corpos. E não só, pois o significado maior desta minha arte é que consigo, mediante ela, distinguir, com maior segurança, se a mente do jovem dá à luz quimeras e mentiras, ou coisas vitais e verdadeiras. E tenho em comum com as parteiras precisamente isto: também sou estéril, estéril em sabedoria; e a censura que já muitos me fizeram de que eu interrogo os outros, mas nunca manifesto o meu pensamento acerca de nada, é uma censura muito verdadeira.[...] Por conseguinte, eu próprio não sou de modo nenhum sábio nem se gerou em mim qualquer descoberta que seja fruto da minha alma.» O universalismo socrático não era a negação do valor dos indivíduos, era o reconhecimento de que o valor do indivíduo só pode ser compreendido e realizado nas relações entre os indivíduos. Mas a relação entre os indivíduos, se é tal que garanta a cada um a liberdade da pesquisa de si próprios, é uma relação fundada na virtude e na justiça. E é aqui, portanto, o interesse de Sócrates, na medida em que se entende promover em cada homem a investigação de próprio, se volta naturalmente para o problema da virtude e da justiça.

A maiêutica mais não era, na realidade, que a arte da pesquisa em comum. O homem não podia ver claro por si só. A investigação de que se ocupa não pode começar e acabar no recinto fechado da sua individualidade, pelo contrário, só pode ser fruto de um dialogar contínuo com os outros, como consigo mesmo. O método socrático tinha como característica levar cada indivíduo a reflectir acerca dos seus deveres. Sócrates começava por chamar a atenção de cada um para os seus interesses pessoais, interesses domésticos ou pessoais, educação dos filhos, problemas da vida da cidade, questões relativas ao saber. Levava em seguida os seus interlocutores quaisquer que eles fossem, a extrair do caso particular o pensamento universal. Começando por suscitar a desconfiança em relação aos preconceitos que cada um aceitou sem exame prévio, conseguia convencer o seu interlocutor a procurar em si próprio o que era. Conduzia-lo assim, por um lado, a extrair o universal do caso concreto e a expor plenamente à luz aquilo que se esconde em qualquer consciência; e, por outro lado, obriga-o a destruir as generalidades aceites de imediato pela consciência.

Não tendo conseguido formular uma filosofia de maneira sistemática, o processo principal de Sócrates consistia em interrogar, em ajudar cada um a tomar consciência dos seus próprios pensamentos, ou melhor, em despertar dentro de cada indivíduo a consciência do universal, a qual existe no foro íntimo de todos como essência imediata. Tal como escreveu Hegel, Sócrates opõe à interioridade acidental e particular a universal e verdadeira interioridade do pensamento. A introspecção é o característico da filosofia de Sócrates, e exprime-se na famosa frase, Conhece-te a ti próprio. Isto é torna-te consciente da tua ignorância.

"Conhece-te a ti próprio”

O templo de Delfos trazia inscritas no seu frontispício diferentes fórmulas de sabedoria entre as quais a célebre: «Conhece-te a ti próprio», de que Sócrates fez a trave mestre do seu pensamento. Este conselho de Deus foi para Sócrates simultaneamente uma arma de combate contra os sofistas, e uma mensagem ao aprofundamento da qual ele convidou os seus discípulos a consagrarem-se. Como podemos constatar no seguinte excerto:

« Sócrates – Agora, qual será a arte pela qual poderíamos - nos preocupar connosco?

Alcibíades – Isto eu ignoro.

Sócrates – Em todo caso, estamos de acordo num ponto: não é pela arte que nos melhorar algo que nos pertence, mas pela que faculte uma melhoria em nós mesmos.

Alcibíades – Tens razão.

Sócrates – Por outro lado, acaso poderíamos reconhecer a arte que aperfeiçoa os calçados, se não soubéssemos em que consiste o calçado?

Alcibíades – Impossível.

Sócrates – Ou a arte que melhora os anéis, se não soubéssemos o que é um anel?

Alcibíades – De facto, não!

Sócrates – Então, por ventura podemos conhecer a arte de nos tornarmos melhores, sem saber o que somos?

Alcibíades – Não, isto não é possível.

Sócrates – Entretanto, será fácil conhecer-se a si mesmo? E teria sido um homem ordinário aquele que colocou este preceito no templo de Pytho? Ou trata-se pelo contrário de uma tarefa ingrata que não está ao alcance de todos?

Alcibíades – Quanto a mim, Sócrates, julguei muitas vezes que estivéssemos ao alcance de todos, mas algumas vezes também que ela é muito difícil.

Sócrates – Que seja fácil ou não, Alcibíades estamos sempre em presença do facto seguinte: Somente conhecendo-nos é que podemos preocupar connosco, sem isto não podemos.

Alcibíades – É muito justo. » ( in Sauvage)

Concluímos que os ensinamentos de Sócrates tinham dois propósitos. O primeiro era de demonstrar que o conhecimento era a base de toda a acção virtuosa; o segundo, indicar o conhecimento devia ser desenvolvido pelo próprio indivíduo, de sua própria existência, por meio do método dialéctico. O conhecimento, sustentava ele, era o requisito prévio da livre acção em todas as artes. Isto é sobretudo verdadeiro no caso da mais elevada das artes, a arte de bem viver. Esse conhecimento, sustentava Sócrates não podia ser adquirido pela simples aceitação de opiniões individuais, mas somente pela procura daquilo que é comum a todos e que constitui a verdade universalmente válida. Mas o indivíduo era incapaz, sem instrução, de descobrir em sua experiência essa verdade de validez universal. Tal verdade só podia ser adquirida mediante o processo da dialéctica. Em consequência, o alvo do trabalho de Sócrates, assim como o seu ponto de vista sobre o objectivo geral da educação, era o de desenvolver em cada indivíduo o poder de formular verdades universais.


As contribuições permanentes e imediatas de Sócrates para a educação são estas:


1) o conhecimento possui um valor prático ou moral, isto é, um valor funcional, e consequentemente é de natureza universal e não individualista;

2) processo objectivo para obter-se conhecimento é o de conservação; o sub-objectivo é de reflexão e da organização da própria experiência;

3) a educação tem por objectivo imediato o desenvolvimento da capacidade de pensar, não apenas ministrar conhecimentos.


- Nesses aspectos sua influência tem sido tão ampla e é ainda tão poderosa quanto foi a influência das suas práticas nas escolas gregas daquele período.

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       ESCOLINHA DE FUTEBOL DA ASSOCIAÇÃO DOS ARROJADOS








 






"É prudente não confiar inteiramente em quem nos enganou uma vez." [ René Descartes ]




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